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Como a Guerra Fria deu origem à ritalina, a droga da 'concentração infantil'
10/06/2016 - 9h18 em Saúde

 

 

Direto do portal BBC Mundo

 

Durante a década de 1960, era comum, nos Estados Unidos, que crianças hiperativas recebessem um medicamentopara ajudá-las a se concentrar nas aulas.



     A chamada "pílula da matemática", a ritalina, continua sendo um dos tratamentos mais usados em vários países para tratar o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).


     Seu principal componente, o metilfenidato, da família das anfetaminas, tem a propriedade de estimular a concentração e reduzir a impulsividade.

     Essas qualidades eram consideradas necessárias dentro da transformação, durante a década de 1960, do sistema escolar dos EUA, que queria competir com a União Soviética no contexto da Guerra Fria, de acordo com o historiador Matthew Smith, da Universidade de Strathclyde (Escócia) e autor do livroHyperactive: The Controversial History of ADHD (Hiperativos, a controversa história do TDAH).

     "Havia uma corrida científica e espacial com a União Soviética e por isso o novo sistema educativo exigia que as crianças permanecessem sentadas em suas carteiras fazendo tarefas", disse.

     Quando a droga foi sintetizada, em 1944, pelo químico italiano Leandro Panizzon, não estava previsto que crianças pudessem tomá-la.

     Então como ela acabou virando a solução predileta dos pais e psiquiatras para os pequenos hiperativos?
Fármacos no pós-guerra

     Existe uma lenda urbana de que Panizzon batizou o medicamento de "ritalina" em homenagem a sua mulher, Margarida, que chamava pelo apelido carinhoso de Rita.

     "Ela tomava o comprimido antes de jogar tênis. Aparentemente, sofria de pressão baixa e isso lhe dava um empurrão na partida", destacou Smith.

     O laboratório onde ele trabalhava, Ciba, começou a comercializar o fármaco para adultos com a mensagem de que era mais forte que uma xícara de café mas não tão intenso nem com efeitos secundários de outras anfetaminas mais potentes.

     Na época de seu surgimento, o mercado de medicamentos passava por várias mudanças e avanços.

     No pós-guerra, começaram a ser tratadas doenças como tuberculose, e teve início a vacinação contra a pólio.

    "As pessoas começaram a recorrer a fármacos como solução para tudo", disse Smith, que acrescenta que drogas psiquiátricas também geraram otimismo e que isso se manteve por mais duas décadas até a descoberta de efeitos secundários e de seu potencial viciante.

Fórmula para crianças

   Em uma pesquisa de 1937, o psiquiatra Charles Bradley fez uma descoberta: depois de administrar anfetaminas a um grupo de crianças para tratar dores de cabeça, ele notou que elas tinham o surpreendente efeito de estimular sua concentração.

    Sua descoberta foi investigada duas décadas depois, quando o psicólogo clínico Keith Conners, em 1964, da Universidade Johns Hopkins em Baltimore (EUA), fez o primeiro ensaio clínico aleatório com ritalina em crianças com "transtornos emocionais".

    O jovem pesquisador estava intrigado com a possibilidade do tratamento com drogas, porque os baseados em terapia não pareciam dar resultado.

     O estudo mediu concentração, níveis de ansiedade e impulsividade.

     A resposta das crianças foi imediatamente positiva.

     "Estavam emocionadas de tomar um remédio que ajudava com suas tarefas. Sentiam que já não eram crianças problemáticas ou más", disse Conners à BBC.

     Depois que Conners e seus colegas publicaram os resultados, a ritalina começou a ser usada com mais frequência para tratar hiperatividade em crianças americanas.

    Segundo o historiador Matthew Smith, os professores começaram a indicar crianças com problemas de conduta a psiquiatras, que quase sempre diagnosticavam transtorno de hiperatividade.

     "O sistema escolar pressionava as crianças a se sentarem quietas nas carteiras e se concentrarem", disse Smith.

     Consumo 'excessivo'

     Apesar de haver ajudado a popularizar o medicamento na sociedade americana, Conners acredita que hoje ele é usado em excesso.

     "Quando começamos, não conseguíamos convencer as pessoas de que havia crianças com TDAH. Agora parece que elas são encontradas até embaixo das pedras", disse ele à BBC.

     O psicólogo considera que este transtorno está sendo diagnosticado de forma excessiva e que outros fatores são ignorados.

    "Um número significativo de crianças em idade escolar é dignosticado com TDAH quando, na realidade, pode ser que sejam muito jovens para a série em que estão. Ou podem ter outras desordens parecidas com o TDAH", disse.

    No Brasil, a discussão sobre consumo excessivo da droga entre crianças também ocorre.

    Um boletim divulgado no ano passado pelo Ministério da Saúde diz que, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos, o Brasil era, em 2010, o segundo maior consumidor de ritalina do mundo.

    O ministério recomendou que os Estados aumentassem o controle sobre prescrição e distribuição da droga para evitar a "medicação excessiva" de crianças.

    O documento diz que há estimativas discordantes sobre a ocorrência de TDAH em crianças e adolescentes no Brasil, que variam de 0,9% a 26,8%.

 

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