O FIM DO LIVRO DE PAPEL
28/07/2018 12:17 em Cantinho Literário

 


Sou bibliotecário e esse tema tem causado dúvidas nas pessoas onde algumas acreditam diante da era digital no fim do livro como o conhecemos, no desaparecimento das bibliotecas e consequentemente dos profissionais da biblioteconomia. As bibliotecas estão com os dias contados? Tudo está nas páginas da Internet ou no Google?

Mas para falar de algo tão contemporâneo e complexo, vamos ver a linha do tempo de como a informação passou de suporte à suporte, passando por adaptações e melhorias até chegarmos ao livro como o conhecemos.

A necessidade de se registrar o aprendizado já existia há muito tempo atrás desde o homem das cavernas com a arte rupestre. Os desenhos nas paredes já compartilhavam algumas ações do cotidiano, como a caça, o melhor período para plantio, entre outros.

Milhares de anos depois, no Egito, a informação era armazenada em tabletes de argila, rolos de papiros ou pergaminhos. Os papiros eram feitos com as fibras das folhas das plantas e posteriormente com peles de animais, e eram armazenadas em bibliotecas para consulta: dos sábios, escribas, faraós, etc. Utilizando-se de pincel, o conteúdo desses documentos eram feitos por copistas e na sua maioria analfabetos.

Infelizmente, muito desse conteúdo se perdeu pela falta de qualidade desses materiais. Seja pela ação do tempo ou por descuidos causados pelo homem como o incêndio na famosa Biblioteca de Alexandria.

Resultado disso foi buscar ao longo dos séculos um material de melhor qualidade, até a descoberta da celulose para a fabricação do papel. As páginas então começaram a ser costuradas e temos o livro de papel, mais fácil de se manusear do que em rolos de papiros ou pergaminhos.

Na idade média tivemos grandes mudanças com o aparecimento das Universidades Católicas, surgimento da imprensa  de Gutenberg (1400 - 1468) com os tipos móveis, a descoberta da eletricidade que foi aprimorada por Benjamin Franklin (1870). Ou seja, chega de acidentes com velas ou lamparinas na hora da leitura.

Outro fato importante é que a maioria das pessoas eram analfabetas. O acesso à informação e a educação era exclusivo para aqueles que faziam parte: do clero, da nobreza, os religiosos como papa, bispos, padres e também membros da realeza.

Mas com o desenvolvimento da humanidade e a Revolução Industrial, séc XVIII - XIX foi preciso que as pessoas estivessem capacitadas para o trabalho (saber ler o manual da máquina). Foi nesse ponto que essas pessoas passaram a frequentar escolas e ter acesso aos livros.

As bibliotecas começam a abrir o seu acervo. Antes, somente aqueles que trabalhavam nas bibliotecas ou pessoas da elite da sociedade eram quem tinham o acesso aos livros. Podemos ver isso na Obra de Umberto Eco, O Nome da Rosa .

Voltando ao contexto atual…

Do papiro ao pergaminho e do pergaminho ao livro. Tivemos uma noção da história do livro que está há milhares de anos com a humanidade. E ao contrário dos séculos anteriores, o acesso à informação tornou-se mais democrático e ágil com a internet.

O livro digital aparece em 1998 com o lançamento do primeiro e-Reader Rocket e-Book que foi comercializado e então começou a concorrência, com uma versão colorida da Apple pela empresa SoftBook Press.

Mas o que é um livro digital ou e-Book?

O livro digital é um formato específico conhecido como e-Pub (publicação eletrônica) que pode ser acessada por um aparelho específico ou por tablets e celulares, possibilitando o armazenamento de vários livros em um só aparelho. Curiosidade: os tablets de hoje são referência aos tabletes de argilas usados na antiguidade para registro do conhecimento.

Desses aparelhos específicos temos então os e-Readers (leitores de livros como Kindle, Kobo, Tablets, entre outros), que são voltados somente para leitura. Alguns desses e-Readers imitam a tinta do papel conhecido como e-Ink (tinta eletrônica) e podem emitir luz ou apenas depender da luz ambiente.

Suas funcionalidades são diversas como: Marcadores de páginas; Bloco de Anotações; controle da luminosidade; dicionário (ao selecionar uma palavra automaticamente aparece o seu significado); busca dentro do livro seja por palavra ou frase; ajuste no tamanho da Fonte, acesso às livrarias, compartilhar um trecho do livro em redes sociais, baterias duradouras (mas somente se for um e-Reader) e o peso aproximadamente de 300 gramas.

Mas ainda não são todos que estão habituados com o suporte digital. Algumas pessoas reclamam do cansaço provocado pela luz de alguns aparelhos, a falta da sensibilidade do papel e até mencionam também falta do cheiro do livro.

Portanto posso dizer o foco não é se o livro vai ser acessado no formato papel ou digital mas a preocupação é com a qualidade do conteúdo e qual a qualidade desses novos suportes, se serão confiáveis para armazenar informação ao longo dos anos assim como no livro em papel. Outra questão é a proliferação de notícias falsas veiculadas em sites, redes sociais, aplicativos de conversas e são conhecidas popularmente como Fake News. Devido a isso torna-se necessário e imprescindível consultar a fonte e data da publicação.

Uma sugestão é experimentar tanto o livro físico quanto o livro digital. Se permita tirar as suas conclusões para então saber se irá ou não atender às suas expectativas. Cada um tem a sua particularidade e muitas vezes o conteúdo só terá em formato livro de papel, seja por questões autorais ou por ser tratar de um material raro, sendo então impossível digitalizar sem danificar o mesmo.

O livro físico tem suas vantagens quanto a confiabilidade da informação em comparação ao que se está publicado em alguns sites. Antes de chegar ao leitor o mesmo já passou por checagem, correções, revisões para então ser publicado.

Nem tudo no Google nós conseguimos consultar a fonte e, uma melhor maneira para se pesquisar são fontes como o Google Acadêmico, Scielo e as Bibliotecas públicas ou privadas. O acesso do lugar pode ser virtual para não perder tempo e saber se o que você procura existe ou não em uma biblioteca pública ou biblioteca universitária.

Sendo assim é  bom valorizarmos esse suporte da informação ao invés de substituirmos tão cedo por outro suporte pelo qual ainda está em desenvolvimento conforme avança a tecnologia.

Portanto devemos ler mais, buscar informação para elevarmos ainda mais o conhecimento. Sobre este assunto, o livro é um suporte muito valioso para a sociedade. Contém a identidade de uma nação, sua história, culinária, filosofia, etc.

Em tempos de guerra como na Alemanha de Adolf Hitler, uma das suas medidas foi queimar os livros que continham informações sobre a cultura judaica. Apagar sua história e costumes como foi bem retratado no livro: A menina que roubava livros de Markus Zusak. Também podemos ver na época da inquisição da Igreja Católica, a perseguição  dos Muçulmanos, retratado no filme A Cruzada de Ridley Scott.

“O livro como conhecemos não acabou. O livro apenas está evoluindo, como é de se esperar, para os novos suportes ou plataformas tecnológicas. Mas o livro continuará a existir, não importa se em uma tela de E-Ink ou impresso em papel.”

PROCÓPIO, Sidney

 

Referências:

CANFORA, Luciano. A Biblioteca desaparecida: histórias da biblioteca de
Alexandria. São Paulo: Companhia das letras, 1989. 195p.

ECO, Humberto. O Nome da Rosa. Tradução Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade. 2° ed. Rio de Janeiro: editora Record, 2010.

PROCÓPIO, Sidney. O livro na era digital. São Paulo: GIZ, 2010. 230 p.

ZUSAK, Markus. A menina que roubava livros. Tradução Vera Ribeiro .Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011.




Boa leitura à todos!

David A. Tavares

Crb 10073

Participação de: Camila de Carvalho Vieira Tavares

 

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!
Rádio ESPORTESNET