Será que estamos livres da extrema-direita?
15/01/2018 10:02 em Política

Autor Milton Blay - Autorizado

 

     Desde a virada do século, a extrema-direita vem ganhando terreno na paisagem política europeia. As eleições de 2017 confirmaram essa tendência na França, Alemanha, Áustria e Holanda. Mesmo que não tenham conseguido nenhuma vitória, os partidos neofascistas alcançaram resultados históricos e se tornaram extremamente populares. 

     Na França, a presidente da Frente Nacional, Marine Le Pen, foi ao segundo turno das eleições presidenciais, quase dobrando o número de votos de seu pai, Jean-Marie Le Pen, em 2002. 

     Na Holanda, o Partido da Liberdade, de Geert Wilders (que apesar de sua origem judaica defende a superioridade racial e considera os muçulmanos seres de QI baixo), tornou-se, em março do ano passado, a segunda força no parlamento, atrás apenas dos Liberais, com 20 das 150 cadeiras. 

     As derrotas de Marine Le Pen e Geert Wilders deram a ilusão de fragilidade da extrema-direita, mas esta seria uma leitura deformada. Analisados em perspectiva, os resultados mostram que, ao contrário, ela tem se fortalecido.

     Nas legislativas alemãs, de setembro, assistimos à surpreendente ascensão do partido Alternativa para a Alemanha, que entrou no Bundestag com 16,6% dos votos, contra 4,7% nas eleições de 2014. 

     O Partido da Liberdade da Áustria, o mais velho da família populista europeia, recebeu, nas eleições de 15 de outubro, um número de votos muito próximo do seu recorde histórico de 26%. Isso lhe abriu as portas do poder. Três super-ministros - Interior, Defesa e Relações Exteriores - entraram no novo governo de coalizão com os conservadores do Partido Popular Austríaco.

     De um pais a outro a história é diferente, mas atrás do sucesso da extrema-direita encontramos sempre o medo, a insegurança, real ou imaginária, ligada ao terrorismo, à globalização, às incertezas econômicas e sobretudo ao fluxo migratório, Há décadas a imigração é uma preocupação chave do eleitorado europeu, sem que os partidos tradicionais tenham encontrado uma resposta adequada. 

     A Alternativa para a Alemanha e o Partido da Liberdade da Áustria avançaram significativamente nos países que mais receberam refugiados em 2015, alimentando o debate sobre o custo político da solidariedade e a capacidade de integração dos recém-chegados. 

     Paralelamente, cresce o ressentimento popular contra as elites políticas, econômicas e culturais.

     O que os demais partidos, principalmente os conservadores, têm feito diante da ascensão da extrema-direita? sem saber como responder ao desafio, eles têm optado por copiar o programa dos extremistas, sobretudo no que se refere à imigração. Na Áustria, o jovem conservador Sebastian Kurz, do Partido Popular, pautou a sua campanha nas questões de segurança, luta contra a imigração, oposição ao islamismo. Isso lhe trouxe votos, facilitou a aliança de governo do seu partido com a extrema-direita e lhe garantiu o cargo de primeiro-ministro. Seu exemplo tem seguidores. 

     Na Bulgária, o partido de centro-direita de Boiko Borisov também governa, desde março, com uma coalizão de partidos nacionalistas. 

     Na Hungria, a situação é paradoxal. Face à política cada vez mais xenófoba do conservador Viktor Orban, o partido de extrema-direita Jobbik, que passou a "moderar" o seu discurso, se apresenta agora como principal alternativa. O pais, dividido entre extrema-direita e extrema-direita, está ameaçado de sanções pela União Europeia por não respeitar as regras democráticas e os direitos humanos.

     Na França, as alianças com a extrema-direita ainda são um tabu entre os conservadores, mas a direita francesa, representada pelo partido Os Republicanos, acaba de plebiscitar um novo líder, Laurent Wauquiez, que defende a cartilha extremista de Le Pen e não descarta uma aliança eleitoral com a Frente Nacional.

     O sucesso dos populistas, eurocéticos, hostis à imigração, acelerou a recomposição do cenário político europeu. O exemplo francês, com a velha guarda varrida do palco político e a eleição do jovem Emmanuel Macron é o maior exemplo. Ao mesmo tempo, os próprios extremistas se dividem em ideologias mais ou menos radicais. Assim, a Frente Nacional e Alternativa para a Alemanha vivem divergências internas profundas. Buscam novas estratégias para chegar ao poder nos países centrais. 

     Até pouquíssimo tempo, analistas explicavam que a ascensão da extrema-direita era consequência das desigualdades sociais e do desemprego. Essas explicações contudo cairam por terra, com o sucesso dos radicais nos países nórdicos, campeões da socialdemocracia e do bem estar. 

     Na Noruega, um dos líderes do partido conservador, Carl Hagen, tornou-se conhecido por suas críticas ferozes aos muçulmanos, homossexuais, mães solteiras e imigração. Nas últimas legislativas suecas, a extrema-direita pulou de 5,7% para 13%. Na Dinamarca, o partido extremista DPP, vencedor das eleições, integra a coligação governamental. Descontentes, os mais radicais fundaram um novo movimento e iniciaram uma campanha contra imigrantes com a distribuição de "sprays" anti-refugiados. Estudantes brasileiros também estão na alça de mira. Na Finlândia, o dirigente do partido populista, xenofóbico e eurofóbico Verdadeiros Finlandeses, que já era abertamente racista, agora não hesita em comparar o islão à pedofilia e pedir sanções para organizações humanitárias que resgatem refugiados no mar Mediterrâneo, argumentando que elas incentivam o movimento de africanos rumo à Europa. Para eles, Verdadeiros Finlandeses, mais vale um africano morto...

 

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