Corporativês
21/09/2017 18:16 em Economia e negócios

Por Carolina Martins

Ouvimos a mesma história desde pequenos: “se não sabe, pergunte”. A recomendação tem um peso especial para estagiários e trainees, pois parte de suas obrigações consiste justamente em aprender. O mundo corporativo criou uma linguagem própria para se comunicar, e aos iniciantes algumas reuniões podem parecer conversas cifradas. Há empresas em que se diz “insight” em vez de ideia. A palavra “deadline” significa data final de entrega e um “brainstorm” é uma reunião para troca de sugestões e opiniões. Podem confundir até mesmo quem tem familiaridade com o inglês.

Perguntar é legal e demonstra interesse, mas para você não ficar boiando em seus primeiros dias no trabalho, ou não ter que interromper reuniões para perguntar o que é “benchmarking”, preparamos alguns exemplos das expressões mais comuns usadas no mundo corporativo. Saiba ainda como seu e-mail é monitorado, ou ainda se dá para namorar com o colega de trabalho e qual a roupa certa para cada empresa. Você pode também ficar sabendo de tudo isso pelo Twitter.

 

Começar uma reportagem dizendo que o mundo é dinâmico é tão necessário quanto dizer que a àgua é molhada. O mesmo pode-se dizer das inovações- digamos- léxicas que o ambiente corporativo introduz no cotidiano das pessoas. Um bom exemplo está no texto recebido via e-mail por um colega de uma grande empresa. 

 

"Atenção!!! Hoje, às 15h, no anexo B, brainstorm com a presença do headhunter e do CEO da holding. Na pauta assessment management e também assignments. Após o primeiro coffe break de 15 minutos teremos um benchmarking e será dada a oportunidade a todos os colaboradores, de com o auxílio de nosso mentoring, usarem seu networking para com as informações adquiridas de um briefing, montarem um business plan, visando um business unit, com budget pré-definido pela equipe de overhead, levando-se em conta a cultura organizacional. Todo esse processo estará sendo acompanhado por profissionais de coaching de nossa organização e sendo avaliado just in time pelo ombudsman do grupo. Job rotation serão bem vistos por permitirem que saiam de suas zonas de conforto, demonstrando assim capacidade de adaptação em caso de Reengenharia. On-the-job também serão aceitos, porém, a meritocracia ficará comprometida. O deadline será de duas horas após o inicio e o feedback da corporação será no final da reunião em um happy hour, afinal, não se trata de nenhum downsizing. Atenciosamente, Manager. ”

Lido assim, de um fôlego só, não dá para entender se o destinatário do e-mail está bem ou mal na foto, não é? O grito é por um help!

Pois esse é o mundo corporativo. Cheio de terminologias que muitas vezes só eles entendem, outras vezes, nem eles mesmos, aí alguns fingem que sabem para não ficar feio com a chefia.

A geração que chega ao mercado de trabalho agora, dos 20 aos 30 anos, está mais familiarizada com esses termos, o problema são os mais velhos. Mostramos o e-mail a algumas pessoas e perguntamos como ele seria recebido caso fosse enviado a públicos distintos.

Segundo o professor Carlos Maia, psicólogo da Universidade de Guarulhos, os profissionais com faixa etária acima dos 45 anos e escolaridade mais baixa, quando perdem o emprego, encontram mais dificuldade para retornarem ao mercado.

– É muito desumano o que o mercado faz com essas pessoas, são profissionais sérios, filhos de uma geração que se acostumou a ver pais e avós trabalharem a vida toda em uma empresa só. Eles também tinham esse sonho. Aí veio a globalização, as terceirizações. A automação e o emprego foram ficando escassos. Esse profissional começou a ter de trocar de emprego, perder renda, trabalhar mais por menos, não teve tempo de se qualificar. Agora, com cinquenta anos, está velho, não conseguiu acompanhar as mudanças. Um e-mail como esse, se enviado para ele, é como se estivesse escrito em sânscrito.

Para a professora de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mariana Silva Amorim, o uso de anglicismos no RH é um modismo que tem se acentuado nos últimos anos.

- Como a maioria dos livros são escritos em inglês, ao serem traduzidos, determinadas palavras que se firmaram como conceitos nos EUA, por exemplo, acabam por serem mantidos no original, o que reforça a terminologia. Não é que há uma depreciação da língua portuguesa, mas é o próprio tradutor quem mantém o conceito original. Não haveria problemas em usar um sinônimo em português na maioria dos casos do e-mail citado, por exemplo. Pausa para café, orçamento, gerente, diretor, presidente. Parece-me mais uma vaidade de quem escreveu. Agora, quanto à receptividade, um jovem não teria muitos problemas para entender o conteúdo. Mas teria problemas para formular o que se pede. Se fosse uma empresa formada por jovens, o plano naufragaria. Em uma empresa formada por pessoas mais velhas, na faixa de 50 anos, teria-se o inverso: dificuldades para entender o que se pede, mas uma vez entendido, o trabalho fluiria. O segredo e o futuro das corporações, ainda será por muitos anos essa mescla: experiência e juventude”.

Já para um analista de sistema de uma multinacional, profissional com mais de duas décadas de experiência e que já teve de se reinventar mais de uma vez.  “Gastamos mais energia e temos menos retorno”. A seguir, trechos da entrevista com ele:

O que você acha das nomenclaturas utilizadas hoje em dia?

Acho que é uma evolução natural. Com a globalização, o meio empresarial buscou se equiparar com as empresas estrangeiras, usando métodos e cargos que eram usados por elas, e consequentemente as nomenclaturas também.

Quais as mudanças que você enfrentou por causa delas no trabalho? Você teve dificuldades?

As nomenclaturas não me afetaram em nada, mas junto com a criação delas vieram cargos adicionais e mais burocracia.  Eu acredito que as maiores dificuldades foram os excessos burocráticos que vieram com estes novos cargos, não aquele que nos ajuda, mas o que não acrescenta nada a não ser perda de foco. A consequência disto é que um projeto que eu levava um mês para concluir-por conta deste acréscimo de burocracia- o prazo pode ser multiplicado por cinco ou mais. Com isto os custos também se elevaram.

Como era antigamente?

Antigamente tínhamos uma linha hierárquica menor, com nomes bem definidos e papeis definidos. Nós conseguíamos enxergar dentro da compania as funções e as responsabilidades. Hoje em dia acho muito complexo a descrição dos cargos e suas responsabilidades.

Hoje, você considera fundamental o uso de termos estrangeiros no meio empresarial?

Hoje em dia não temos como fugir disto, é praticamente impossível sobreviver no mundo empresarial sem usar e tentar entender estas nomenclaturas. Se você ignorar isto, você terá sua carreira comprometida, principalmente em grandes companias. 

As pessoas ao seu redor usam? São as jovens? As mais velhas? Conte-nos um pouco.

Hoje trabalho em uma empresa de grande porte do sistema financeiro e as pessoas usam demais, não existe distinção de idade, cor ou sexo, estas nomenclaturas estão presentes no dia a dia de todas as pessoas dentro da companhia, a coisa é tão forte que mesmo em conversa informais entre amigos, onde não precisariam ser usadas, elas estão presentes. 

Os puristas da língua hão de reclamar que os excessos de estrangeirismos estão desvirtuando a nossa língua portuguesa. Essa discussão é tão velha quanto a própria língua. Nenhum idioma se mantém puro. O homem cresce culturalmente e se apropria de coisas por onde passa, assimila temperos para suas comidas, ingredientes para seus pratos, tecidos para suas roupas e palavras para expressar seus sentimentos, construir conexões e até mesmo fazer revoluções. Mas a grande revolução é tomar a cabeça das pessoas. Revolução mental, mexer na cabeça das pessoas.

Nas empresas isso não vai mudar. A moda nos últimos anos é o inglês, já foi o francês, teve um período de alemão. Dependendo de quem mandar na economia mundial, esse mandará no dicionário corporativo das próximas décadas.

Tomara que não seja a Tailândia.

 

 

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